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07 novembro, 2011

FLORIPA x MEIMBIPE

Para quem é de FLORIANÓPOLIS ou veio morar aqui ou veio pasear ou pretende morar aqui, sugiro a leitura deste artigo do cumpadi CÉSAR FLORIANO que foi anteriormente publicado no jornal NOTÍCIAS DO DIA.
Aos que tiverem um pouquinho mais de disposição, sugiro refletir sobre o tema do texto, ainda que brevemente. Como se diz em Minas, antes pingar do que secar.
Boa leitura e aproveite para navegar pelos hyperlinks (PALAVRAS REALÇADAS)!

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"Uma Ilha chamada Meiembipe,
uma cidade chamada Florianópolis

Ao terminar de ler o livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” do escritor moçambicano MIA COUTO, uma obra prima da literatura contemporânea, pensei na nossa ilha querida, Ilha de Meiembipe. O livro narra a trajetória do jovem Mariano, protagonista da história, que retorna à sua terra natal, a ilha Luar-do-chão, para coordenar os procedimentos, comuns às famílias moçambicanas, da morte do seu avô, o velho Dito Mariano. Ao chegar à ilha, tomou conhecimento, de forma inusitada, dos mistérios que rodeiam o morto, a família e o lugarejo de sua infância. Esta história que me comoveu de forma marcante, primeiro pela impecável narrativa e em segundo por suas metáforas, me serve de partida para refletir sobre o processo de ocupação e urbanização da Ilha de Santa Catarina.

Depois de anos afastado do convívio familiar e da ilha, o jovem Mariano se depara com a destruição do patrimônio cultural e a venda das terras ancestrais. A especulação imobiliária, promovida em nome da modernização, do progresso e desenvolvimento, contaminam todas as relações sociais e os valores determinantes da estruturação simbólica da família. Em resposta a esta situação, uma seqüência de mistérios ronda a ilha Luar-do-chão, o funeral persiste em não se consumar, um mundo mágico vai se configurando e um morto vivo busca no jovem Mariano a possibilidade de resgate dos valores em risco. A terra em protesto da destruição do espírito do lugar se fecha para o sepultamento do avô. O coveiro tenta cavar, cavar, mas seu gesto, para o desespero da família, é inútil, o chão havia se tornado rocha. A terra mãe ilha, lugar dos ancestrais, se negava a receber o morto, seu fechamento é revolta, protesto e uma condenação aos vivos.

Este conto me fez pensar na Ilha de Santa Catarina, a destruição dos lugares sagrados, da paisagem cultural e a venda para o setor especulativo da paisagem natural. A Ilha como mercadoria, nos últimas décadas, teve sua venda anunciada, travestida de desenvolvimento e progresso. E em nome de um desenvolvimento especulativo, parte do patrimônio foi desfigurado ou destruído. Embora a máquina especulativa tenha atuado de forma agressiva sobre o território, agenciado por um Plano Diretor equivocado e pernicioso, grande parte dos elementos da paisagem cultural da ilha se mantém preservada e devem ser o objeto central de um planejamento sustentável e do novo Plano Diretor em construção.

Nas últimas décadas, alguns equívocos de planejamento e inserções promovidas por um urbanismo e uma arquitetura “tacanha”, provocaram uma desfiguração irreparável no perfil da cidade histórica e portuária. Ter construído o aterro afastando a cidade histórica do mar foi um erro irreparável, mas ter destruído o parque de Roberto Burle Marx, como continuidade da Praça XV foi uma ignorância cultural absurda. A verticalização e a ocupação desenfreada por todo o território da ilha é um desastre ecológico que tem que ser estancado imediatamente. Operação possível, mas somente a partir de uma mudança de paradigma na forma de pensar o crescimento urbano da cidade de Florianópolis e a ocupação do território da ilha. Faltou e falta para os gestores a compreensão de conceito de “insularidade”. Isto é, compreender a configuração lha como caráter do lugar, marcada por um território finito delimitado pelo mar. Compreender que é a condição de ilha que nos diferencia das demais cidades e determina nossa condição histórica. Pensar uma cidade dentro desta paisagem ilha é pensar uma cidade ilha. A Ilha de Santa Catarina, em praticamente na sua totalidade, é uma paisagem cultural que deve ser gerenciada por instrumentos avançados de urbanismo sustentável, um modelo que permita a ativação econômica sem criar desfiguração da cultura. Neste sentido, a cidade de Florianópolis não pode ser pensada como uma grande cidade capital a partir da ilha, ela tem que surgir no continente, é na sua parte continental que ela pode se afirmar como metrópole. Temos que pensar em uma cidade dividida, múltipla, polinucleada. A cidade continental deverá ser a grande prestadora de serviços, pólo de desenvolvimento regional e peça indutora do crescimento metropolitano. Não precisa ter grandes conhecimentos em urbanismo nem bola de cristal para antever esta realidade, Palhoça, São José, Biguaçu e Tijucas irão compor um grande corredor metropolitano. É urgente preparar o continente para esta realidade, criar infraestrutura para agenciar todo o crescimento que irá explodir nos próximos 30 anos nestas cidades. Transferir o aeroporto para Tijuquinhas, levar parte da máquina do estado e rodoviária, para o continente seriam algumas atitudes indutoras deste processo.

Para pensar a cidade ilha é preciso construir um plano diretor de paisagem, uma lei de paisagem rigorosa, que iniba as grandes obras de impacto. Uma lei de paisagem que preserve os visuais, os espaços perspectivos, os cones visuais, vias panorâmicas, lugares de memória, bordas d’água, trilhas, mirantes e as planícies. Na ilha a altura máxima não deveria passar de 4 pavimentos e o modelo do urbanismo baseado em lote residencial deveria ser evitado. Esta forma de ocupação é predadora para o desenho de paisagem, além de criar ruas sem definições de espaços públicos, serviços, unidades de vizinhança, alimenta a cultura dos puxadinhos e máxima ocupação do território. O modelo residencial proposto por parte do movimento social vai contra a idéia de sustentabilidade urbana.

A perspectiva de desenvolvimento para a ilha está em potencializar sua estrutura paisagística, criar uma série de eventos que dinamizem as bordas d’água em todos os seus níveis, gerando espaços públicos de laser, parques e dinamização cultural. Ativar percursos paisagísticos em diferentes escalas, trilhas, teleféricos, mirantes. Ativar o centro histórico como um corredor cultural, criando leis de incentivo para funcionamento de cinemas, restaurantes, clubes, albergues, livrarias e todos os serviços que dinamizem o setor 24 horas, o centro da cidade tem que ter vida noturna e para isto é preciso uma atitude política. A cidade ilhoa para ser viável e aprazível tem que levar em consideração seu limite de escala. Estamos no momento crítico, não podemos mais errar.

Voltando ao texto de Mia Couto, fico pensando no fantástico que seria, se a terra mãe Meiembipe, em rocha impenetrável se transformasse, impedindo novas estacas para construções, sinalizando em revolta que é preciso pensar a terra como suporte da vida e a paisagem cultural como condição e princípio de ocupação do território ilha de Santa Catarina.

Rio de Janeiro, primavera de 2011"


21 março, 2011

FLORIPA: OUTRA AV. BEIRAMAR É POSSÍVEL?


CÉSAR FLORIANO, arquiteto, urbanista e professor na UFSC convida para conhecermos outra possibilidade de ocupação paisagística da Av. Beiramar Norte, fundamental via de circulação de automóveis (porque pedestres, ciclistas e veículos de transporte coletivo de massa têm sido, desde o sempre, preteridos pelas administrações municpais de Florianópolis).

Reproduzindo:


"PROPOSTA DE INTERVENÇÃO PAISAGÍSTICA PARA A BEIRA MAR NORTE

A Ilha de Santa Catarina, com suas belas paisagens naturais e culturais, apresenta um caráter que a qualifica como um dos mais belos cenários do Atlântico Sul. No entanto, a rápida descaracterização dos marcos paisagísticos, a ausência de uma política urbana e a falta de incentivo na criação de novos referentes arquitetônicos e artísticos, tem igualado a imagem urbana da Ilha de Santa Catarina a todas as demais grandes ocupações litorânea. A inserção inadequada de mobiliário urbano, a falta de acessibilidade, a poluição visual e a inexistência de um projeto paisagístico consistente, têm caracterizado o tratamento da borda d’água da cidade de Florianópolis como um todo.
Em setembro de 2007, no momento em que a cidade se mobilizava em torno à construção de um Plano Diretor Participativo, o Fórum de Criatividade e Imagem da Cidade realizou, em parceria com o Curso de Arquitetura da UFSC, a segunda Oficina de Desenho Urbano, tendo como foco a Orla Central da cidade. Entre os diversos trechos desenhados na oficina, constava a criação de um grande Passeio na Avenida Beira Mar Norte, equipado com trapiches, decks, equipamentos de lazer, esporte náutico e recreação infantil.
Iniciadas as obras de enrocamento e o melhoramento do passeio da Avenida Beira Mar, em 2010, por parte da Secretaria de Obras da PMF, constatamos que havia uma ausência de projeto paisagístico e de mobiliário qualificado. Faltava na ação da Prefeitura um desenho forte, um conceito articulador dos diferentes usos praticados e potencializados conforme as diretrizes tiradas da segunda oficina.
No intuito de contribuir com a Secretaria de Obras, em setembro de 2010, construímos um grupo de trabalho na Escola de Arquitetura UFSC, desenvolvendo o conceito de Projeto Paisagístico Integral. Isto é, criar na BEIRA MAR NORTE um Boulevard para contemplação da paisagem, das obras de arte, da cultura local e para vivência comunitária.
O projeto paisagístico de aproximadamente 4 km prevê a inserção de um gigantesco painel mural contando a história da cidade, de mobiliário e de equipamentos de lazer, todos concebidos como obras de arte pública. Além de inúmeros desenhos de lugares de vivência, como o jardim das bromélias, foram criadas algumas maquetes, das quais duas foram selecionadas para a presente exposição, por se tratarem de espaços referenciais: a área do Trapiche e da CASAN.
Entendemos que o esforço da Prefeitura em concluir a reforma da calçada da Avenida Beira Mar, apesar de ser um projeto singelo e sem expressão estética, merece nosso reconhecimento. Mas o local pede uma intervenção com melhor solução no desenho dos espaços públicos, no tratamento da cobertura vegetal e na inserção de obras de arte, que possam criar uma referência cultural na cidade e proporcionar um lugar qualificado ambientalmente.
Equipe:
Arq. Prof. Dr. Cesar Floriano – coordenador
David Sadowski, Vitor Sadowski, Felipe Rizzon, Felipe Miranda, Lucas Passold, Rafael Giaretta
Participação: Arq. Marisa Fonseca - FLORAM
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QUANDO: a partir de hoje, 21/03/2011, às 17:00 h

ONDE: piso L1 do Shopping Beiramar Norte


Ps.: saiba mais clicando nos HYPERLINKS (palavras realçadas)