31 agosto, 2006

SÔ VICENTE

o oleiro
na sua santa inocência
atolava sua imaculada mão na argila
a fazer os tijolos
que formariam o muro
barreira
entre o pomar do patrão
e a fome dos seus filhos

o bom deus
como de hábito
espalhava suas eternas bênçãos
sobre o homem de boa fé
seculus seculorum
amém...

AMÉM?

Caldas, início dos 80’s

YANKEE, GO HOME!

embotar de rubro o teu peito alvo
tornado alvo devido ao estofo
composto
de ódio cobiça
e leve queda
por oprimir reprimir consumir
toda e qualquer aldeia
cujos sonhos julgas não adequados
desde que nada se pode
senão o queres

empapar de rubro teu alvo peito
por mais que seja
nada será
além de mínima poça
bem mais rala
que os sete mares que tens turvado

Cassino, ?/?/95

29 agosto, 2006

PAPO DE ESFINGE

Bah!
Decifra-te.
Eu cá,
devoro-me.

NÃO CARA-PÁLIDA!

sei que só
não salvarei a tribo
mas não serei o batedor
que dirá à cavalaria
qual é a melhor hora para o ataque

não me cativam
teus espelhos e contas de vidro

antixenofobia

como todo brasileiro
um pé na cozinha

na cozinha
do mundo inteiro

lagoa, 13/05/06

esperar de deus...

mano
quem tá no salão de festas
não se preocupa com quem ainda não entrou

aproveite o banco da praça
mano
se encontrar algum vazio
boa sorte pra ti...

floripa, 26/08/05

25 agosto, 2006

Curitiba, 29/08/03

quero brincar com o menino e seu sorriso diferente, partido
que me olha, em meio a cenhos franzidos e apartantes
dos adultos desconfiados

ganho o sorriso
quero mais
quero o brincar, o fabricar sorrisos

a conquista do brincar é uma luta contra a paranóia de hoje
que vem lá do ontem
crescendo feito massa overdosada de fermento

a noite curitibana, gelada
lembra-me que já dormi um bocado de vezes nestas cadeiras,
e que amo, se é que amo alguma coisa, a boa luta

volto à biografia de g. stein e me pergunto:
- qual outro babaca lê a biografia de g.s.
a esta hora
nesta gelada rodô de Curita
?
ou em qualquer outra rodoviária
?

e minha cabeça, vagabundante como sempre, vai a 77:
descolando a grana pra chegar em casa, após
3 dias em dormir
3 dias dormindo em Floripa (que desperdício, ô mané! )
3 dias a banana e cachaça em Balneário Camboriú...
E Cosmó e o feijão de minha mãe, lá longe

continuo a luta por me deixarem brincar com o menino
e venço
porque a alegria sempre há de vencer
e nela, entendo-me com ele

levantam-se
dou-lhe um chaverinho qualquer
(eu, sempre, querendo ir junto)

a mãe rende-se, enfim:
- não vai se despedir do seu amigo?
até insiste, agora:
- diga obrigado!

por dentro, respondo
- carece, não
a vida já me disse, há muito tempo

Curitiba, 29/08/03 – Lagoa, 03/11/03

22 agosto, 2006

NAVALHA NO CERNE

“...mas minha nega
é exatamente porque sei
das tuas dificuldades
dos riscos que corres
(e tanto por tão pouco)
em tuas rondas noturnas
oferecendo pelas esquinas
este corpinho que deus fez
e muitas vezes
em troca
recebendo apenas porradas

neguinha
é por isto que tou aqui
pra te proteger desses jacks
que te seguem pelas madrugadas
te espreitam nos becos das viaturas

eu
que sei dos teus mais íntimos sonhos
mesmo quando te calas
pô neguinha...
sem sacanagem...”


amantes...
palavras cada vez mais sussurros
o vício e o sofrer...

amantes?!

olhares
silêncio
pensamentos
a brisa garoenta agita a cortina
momentaneamente
o neon do hotelzinho de família
invade a penumbra

algo mais brilha na alcova

ZZZAPT!

enfim
os dentes do cordeiro
alcançaram a garganta do pastor/lobo

antes do rubro sorriso tingir o chão
resoluta
posta-se Margot atrás da porta
bem sabe que ainda não é tempo
de limpar a lâmina


Ps: Bonita, onde tem algo do teu Malraux, neste?

20 agosto, 2006

Pra viajar eu pego um trem

quando vejo um bife
como o bife
não fico a imaginar
a cor da vaca
enquanto o bife esfria

Floripa, 17/03/06
e então?!
inquire-me incisivamente
o auto van gogh no retrato

vêm-me os olhares
no plural mesmo
das mulheres de quem gosto, gostei e gostarei
“- eita! o cabra num é fraco!", diria a massa
a maioria
tristes porque desejosas
vivazes? poucas
poucos olhares são vivas asas (snif!)

um vampiro alimenta a si de vida
e vida não importa qual
olhares: gasolinas de minha vida cometa

a queda pelos olhares
de quem acompanhada mal está
parei
hoje sigo
gato escaldado com medo de corrimão
e sem-vergonha de ser sem

então...
então sou só mais uma vela que passa
não velo por ninguém

como tu
van nunca em vão
meu mais um irmão holandês

Floripa, 19/03/04

19 agosto, 2006

radicalizando:

“Sabe quantos caras morreram em Bogotá para que você possa cheirar, Kyle?”

O próprio Kyle pergunta-se numa cena do filme LES FLEURS D’HARRISON (O Resgate de Harrison), suabilíssimo filme de Elie Chouraqui.
A quem será que interessa a resposta?

YANKEE, GO HOME!

embotar de rubro o teu peito alvo
tornado alvo
devido ao estofo
composto de ódio cobiça e leve queda
por oprimir reprimir consumir
toda e qualquer aldeia
cujos sonhos julgas não adequados
desde que nada se pode
senão o queres

empapar de rubro teu alvo peito
por mais que seja
nada será
além de mínima poça
bem mais rala
que os sete mares que tens turvado

ARITMÉTICA

no princípio
deus subtraiu da lama
criou adão
subtraiu de adão
criou eva

a serpente
esta pervertedora da ordem
a adão somou eva

na sua divinal indignação
deus nos subtraiu o paraíso

daí
caim subtraiu abel
noé subtraiu a vizinhança
jesus subtraiu judas
...
ad infinitum
enquanto dure
- como será isto em latim? {8¬(

18 agosto, 2006

minerim

... e tudo vou rompendo com meu sorriso
mineiro jeitim de mexer nas montanhas
sabedor que elas contêm
mas não são
de ferro

Floripa, +/- 2004

17 agosto, 2006

Mareca faz oitenta

mãe de todos
nós
e agregados outros

bisa

ó
coração do mundo
fecundo ventre
de onde vens
tudo vem

a tudo
atenta
Mareca faz oitenta

lagoa, 05/09/05

Clarissa à espera

o esperar prescinde
do desespero
da pressa
da angústia da ausência
posto que não existe esta

o suposto ausente
habita-te saliências e reentrâncias
sabes-lhe cheiro, cor e sabor

rumo ao encontro
já o levas pela mão

distância
tempo:
tudo mera ilusão

Lagoa, 14/07/06, 02:10 h

16 agosto, 2006

All Along the Watchtower

(... mas, assim mesmo, eu vou correndo
só pra ver...)

... e lá vem o costume cristão de reclamar do viver:
“- que merda de chuva!”
(quando o sol aparece, apenas trocam chuva por sol
quando venta...)
“- que dia deprimente!”
(onde é que está, mesmo, a depressão?)

À minha janela,
nada vejo do eterno verde.
Porém, sei-o.
O nada está no alcançar de minhas retinas.
Sinto-o em meu concreto espírito,
parte que estou da extensão de tudo
(no palco à minha volta,
o balé da ramagem feliz
e seu saltitantes cantores
nos oferendam esta certeza vital).

Pra chorar num dia assim,
é preciso ter lágrima já pronta.

Sambaqui, 31/10/02

cartão de visita

dentro de mim vos garanto
há um jekyll e um hyde
não sei qual vos apresento
qual de maior intensidade