18 dezembro, 2006

NATAL

o espírito natalino pegou-o

quer beber ainda mais
odeia o sorriso besta
a porquice imensa
aquelas boas almas impregnadas de
pompa circunstâncias e
lavanda de shopping

como sempre
alguns babacas
que lhe encheram o saco o ano inteiro
virão desejar-lhe feliz natal
e ele lhes retribuirá sorrindo
(como um jacaré sorrindo
para a canela
de quem cai da canoa

e há sempre alguém caindo)

deseja o caos
o transbordar do lodaçal
lama entupindo a boca dos puros

uma gaita geme um blues
a ira aumenta

não é solidão
não há saudades
as pessoas que trariam saudades
não merecem vê-lo agora

é apenas o ódio subindo à cabeça
como o álcool

mas
cuidado
não eufemize
não está bêbado ou revoltado ou
deprimido ou injuriado ou etc.
apenas pura e simplesmente odiando

e se ainda acreditas que ele te gosta
não venhas à minha mesa agora

Cosmo, anos 80

12 dezembro, 2006

eh meu pai!

[poeira entra em meus olhos
não fico zangado não
pois sei que quando eu morrer
meu corpo irá para o chão
se transformar em poeira
poeira vermelha
poeira do meu sertão

(que ouvi com Cascatinha e Inhana lá pelos meus seis carnavais)]

eh meu pai nosso que estais comigo
santificado seja o nosso rumo
caminhas por onde estou
como eu danças no bojo do vento que brinca nesta beiramar
onde mulheres bonitas
- ah como tu irias gostar de vê-las!
cheirosas balançando suas nádegas
prestes a romper justas malhas coloridas
e ofuscar o sol
maravilhar o sol
beiramar continuação
embora aparentemente distante
da morada da tua ex-carne
aparente porque quando olho tu olhas
sentes a escuma da cerveja que bebo
e te escuto a bronquear por minha barba
e meu cabelo comprido que este nosso vento bagunça
e aquela do jogo de futebol entre cabelo ruim e cabelo bom? hein?
sabes que riem quando esta tua nossa história
e outra vez desobedeço
filho do Leite que sou
e se fosse diferente terias vergonha de mim
como teve em Pedregulho
enquanto me gritavas teu orgulho
- na nossa família tem criminoso; ladrão, não!

eh meu pai nosso que estais comigo
quando passo/passa por mim uma bela mulher
solteira casada tanto faz
e me lembro do quanto demorei para perceber
o porquê daquele teu sorrir safado
quando tocava a ponta do nariz com a língua
continuas vivo
nos chanfros onde derramastes tua solda
dos cafundós das Geraes aos cafundós da África
da Rua dos Cachorros ao Brega de Candeias

eh meu pai nosso que estais comigo
rei dos cavalos bravios de Peçanha
criado a samambaia e angu
desafiando as leis protéicas e vitamínicas
em tuas mortes não morridas
tuberculoses maleitas costelas quebradas
eletrochoque apendicites e etc
e o petit déjeuner de cerveja e conhaque

eh meu pai nosso que estais comigo
como nos domingos curitibanos de missa feijoada e zoológico
das cervejas no Caneca de Sangue
dois perdidos em Jacarezinho depois de goles de Ipanema
as noites nos botecos da baixada fluminense
e aquele insólito estilo de dividir a grana:
fregueses dos botecos saindo sorrateiros atrás de fregueses do boteco
e voltando sorridentes a contar o dinheiro dos fregueses do boteco:
a grana de mão em mão até à gaveta do balcão
onde descansaria até ser coletada sob mira do treizoitão
e outro balcão outro freguês outras mãos outras...
do baixo dos meus 20 anos olhava pra ti
e ouvia teu já conhecido mote, desde Curitiba
- onde tem gente vai gente
e lá íamos outra vez pra dentro da noite
cruel moedora de hipócritas e frouxos
bundas-moles rejeitados até pelo ralo da vida
a se perguntarem o quê fazer na superfície
além de bancarem os prazeres sadomasô de farmacêuticos
advogados cardiologistas psyco-gurus
e outras espécies de geriaputas

eh meu pai nosso que estais comigo
te vejo correndo atrás do Gentil homem
que atirou em meu primeiro amigo Suíço
protagonista da primeira cena de cinema
que ainda habita minhas retinas por quase meio século;
tu quixoterói canivete na mão rua abaixo
no encalço de Gentil e seu 38 que lhe pedia:
- não vem Leite, não vem!
e Mareca correndo e gritando e caindo na poeira sobre um Tião ainda em seu ventre
e tudo na hora do almoço
e eu tinha 4
e por esta e outras cenas do mesmo naipe
hoje ultrapasso os 400

eh meu pai nosso que estais comigo
e com teus filhos por sangue ou escolha e amigos
que dionisiacamente te saudaram noite adentro
rindo de suas/nossas histórias
sorrisos porque não mereces choro
nem a hipocrisia do respeito
que respeito é a súplica dos fracos

eh meu pai nosso que estais comigo
cavalgando alta mula de arreios tilintantes
cruzastes o Suassuí-Poca
este nosso Hades
reza de Vó Rosa a abrir porteiras
e no pa-ca-tá pa-ca-tá das patas levantando a terra vermelha
tua alegria a se fundir com o horizonte

eh meu pai nosso que estais
vivo é o vosso sumo

lagoa, 28/11/06

06 dezembro, 2006

HEY YOU, GET OFF OF MY CLOUD! *

puro rock’n’roll
homem aranha
simbólico, of course
não sou idiota a ponto de bancar o herói
nem acredito em final feliz
se é final, não pode ser feliz
curto o caminhar pelo arco-íris
pote?
se houver, charfudo nele
ouro?
meto bronca; sei onde melhor é a cerva
bicho de goiaba, goiaba é
o caminho é a própria meta: o caminhar
não sou, estou
à deriva, como tudo
como tudo!
à beira-mar
esta Beiramar é só um ex-mar
um tanto de ar roubado ao mar
mujeres da Beiramar, sirenas

[corte pro homem aranha 2 (o filme)]
HOMEM ARANHA
- I’m back!
A teia acaba no exato momento que o script decreta: em pleno salto.
HOMEM ARANHA
- My back!
De novo, a poça de lama.

é rap na veia
- e aí, malandraaagem?
mano santista Brown
- ratatatááá filédaputaaa!
fodam-se os lerdos e os inocentes e os ingênuos
gasolina dos afufs da vida

sigo
coisa alguma da coisa toda
like Hurricane Smith
vou lá pra dentro de mim sem sair daqui de fora
a alegria é uma ofensa à cultura cristã
em vida, é claro!
pois, post-mortem, só há glória
ou ranger de dentes, conforme a opção na vida
e o divino livre arbítrio:
- faz o que mando ou te fodo
a opção pelo culto à dor como possibilidade de gozo
eia Thoreau, meu parceiro de delírio
preso, pena e papel a endoidecer a canalha dominante
constantemente abastecida pela maioria cordeira
em ordem unida no seu ódio às ovelhas negras
cago e ando
depressa pra não fazer monte nem juntar mosquito

sigo
(trans)portador dos porcos & galinhas &, peixes &, vacas
& couves & goles & sorrisos & lágrimas
& porradas & trepadas que me compõem
e dispõem-me no mundo em mim
mim que é o mundo que há em ti que é o que há em tudo

sigo
mais um cão no trenó do Amundsen rumo ao pólo
nunca saber se é hora do almoço
ou se sou o almoço
avançar é o que importa
e chegar lá e passar de lá
movimento sempre
por fora ou por dentro do bucho
junto sempre
e se algum cão na bandeirinha cravada no marco do pólo uma mijada der
minha a mijada é
também
sempre

lagoa, 28/11/06

* de uma singela canção stoneana.

09 novembro, 2006

ALÔ, MINHA IRMÃ

Alô, minha irmã Mota e merrmão Bartô (o único guaiquiense que quis virar mineiro e acabou com sotaque baiano)!
Não esqueci e nunca me esqueço de teu povo. O fato é que passo o dia trabalhando no micro e apenas tenho contactado com os amigos que aparecem no MSN. Quando desligo, fico vendo tudo quadrado e azul.
Por aqui, o trabalho ainda precisa deslanchar, mas a vida é tranqüila, pois o povo é bom e é onde mais me sinto em casa.
Agora, já que sonhou tanto cum eu, jogue no macaco (que é o 17, no bicho); como foram 3 vezes, 3 x 17 = 51, o que é uma boa idéia, é o galo na dezena, além de ser minha faixa etária, no momento. Daí, se tu ganhas, faz um belo franguim com quiabo (olha o galo de novo!) bem regado a umas caiporas com aquela caninha 51, joga um golim pro santo (que sou eu mesmo) e pau na jaca!
Enquanto isto, sigo por aqui, agora muito bem tratado por minha Bonita Clarissa (veja lá a foto que pus no álbum.
Bjs pra ti e pras gurias; abraços pra Jão Carlo e Tomás.
Continuamos na área!

18 outubro, 2006

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Duas perguntinhas sem qualquer paranóia:
1 - o que está faltando para Alkimin, ACM, Bornhausen, Tasso e Roberto Freire (quem diria?!) solicitarem as tropas e os tanques nas ruas e a reativação do DOPS?
2 - quais são os reais interesses do Sr. Busato, da OAB?


Ps.: postado no blog do Nelson de Sá: http://todamidia.folha.blog.uol.com.br/

CANTIGA DE NINAR

nunca implorar pelo peixe
mas apreender o pescar
e conquistar o rio

avançar sempre menina
os conselhos vêm dos lados
à frente está o rio

não lamentar o que é ido
parar pra contar os mortos
é dar chance ao inimigo

cuidar as margens menina
saber dividir o rio
e esquecer o que digo

09 outubro, 2006

Sophia

o que é que a baiana tem?
o que é que tem a Bahia?
tem o canto da maré que nos chama
e quem pra encantar a maré?
hein, menina?

donde é que a baiana vem?
donde é que vem a Bahia?
vem d’além mar, vem de Minas
e quem pra sincopar o swing?
hein, menina?

iluminai os ares, Iansã
ribombai nos ares, ogã
dourando os ares da manhã
outra bela nagô sorri
a Bahia tem magia
a magia, tem Sophia

Sophia tem a Bahia

sambaqui, 04-21/5



Ps.: pra por mais brasas na fogueira deste sobrinha que já não tem pouca.

07 outubro, 2006

antixenofobia

como todo brasileiro
um pé na cozinha
na cozinha
do mundo inteiro

lagoa, 13/05/06

a beiramar ao luar

caminhadas
gordo(a)s
tripudiam
-se
a si
e aos possíveis
gorda(o)s

camufladas
abóboras e murudus
balançam sob balouçantes t-shirts

o interessante:
todos embevecidos a louvar a lua cheia
tranqüila em seu lento passeio celeste
toda redondona...

entender?
quem há de?

Floripa, 16/04/03

05 outubro, 2006

JARDIM

Sabe, como as outras, que desfruta do mais
belo jardim e que o bondoso
jardineiro jamais deixaria
alguém lhe arrancar
uma pétala sequer.

O canteiro fica em frente à janela da
menina mais romântica da aldeia.

O seu mais profundo desejo é ser levada
para o pequenino vaso de
porcelana branca com
passarinhos azuis e amarelos
posto sobre o criado mudo,
ao lado da cama, cujos lençóis
exalam as mais finas
fragrâncias de colônia
e platônicas paixões
arrebatadoras.
Ah... aquele brilho que suas pupilas irradiavam
quando, ao chegar do colégio,
jogava-se sobre a cama,
abraçada à almofada, em meio
a murmúrios e suspiros profundos.

Tudo o que quer nesta vida é trocara segurança
das mãos do velhinho e os beijos
profissionais das abelhas e borboletas
pelo suave roçar daquela pele aveludada
ou, pelo menos, um simples olhar.

Todas as outras, como soe acontecer, repreendem-na,
meneando suas corolas ao vento, por esta
inconseqüência adolescente de sonhar
em abandonar a terra fértil do canteiro,
o regador infalível, e etc.

No entanto, lá no íntimo, todas sabem que a vida é uma
só.



Ps.: pra ti, Bonita.

04 outubro, 2006

A PARTILHA

“quem parte e reparte,
fica com a maior parte”

(da ignorância popular)

a propósito,
não seriam o seqüestro, o estupro, o roubo,
a corrupção, o tráfico (de droga
e/ou influência), o dízimo, a
esmola, a extorsão, a quermesse,
o golpe do baú, a prostituição e,
principalmente, aquele nosso jeitinho,
meras alternativas de distribuição de renda
eclipsadas nas teses de Mister Adam Smith e
seus neo-comparsas?

02 outubro, 2006

a luta contínua

assistindo ben-hur
dublado pela tevejo grobo
lá vai o charlton
de submissão em submissão
rumo ao sucesso e à bela mansão em roliúdi
é craro cróvis que haverá alguma reação mais à frente
todo script oficial tem o mesmo fio condutor: o crime nunca compensa
(dependendo da conta corrente, of course)

é the american way of life de uma boa parte desta américa
né mesmo?

muito provavelmente
não haverá filme sobre Saabra e Chatila
- sobre Beirute, vc tem uma vaga idéia, né?
afinal palestinos não contam pra academia

esqueças se quiseres, meu irmão:
enquanto frouxo fores tu
galé continuarás

tanto faz o timoneiro

ps: não te recrimino, brotha; acredito que a mansidão é, de certa maneira, bem mais confortável

...

indignado
arranquei à gaiola
o canário

ao contrário
não partiu

mudo
tem passado as horas
a mirar
a folha de alface
o meio tomate
de sobre o arame farpado

28 setembro, 2006

A CONCLUSÃO É DE CADA UM

Pessoal,
Participei, recentemente, de um bate papo que se seguiu à leitura de uma peça que procurava retratar um pouco da ditadura militar no vizinho Uruguai. Quando, em certo momento, eu afirmei que o golpe militar de 64 foi solicitado pela sociedade brasileira, quase todos me olharam com espanto e reprovação. Vai ver, estou equivocado, desinformado e coisa & tal. Devo ser.
Prolixo que sou, quero apenas repassar este trecho que está no blog do jornalista Nelson de Sá, da Folha de São Paulo (http://todamidia.folha.blog.uol.com.br/ ). É curtinho e não exige mais que meio minuto para ser lido. Aos que tiverem um pouquinho mais de paciência, sugiro clicar em "
áudio grátis ", onde se pode ouvir um bate -papo interessante.
Boa sorte pra nós todos.
Shasça


O colunista e o blogueiro

O site da "Veja" lança seu áudio grátis com um diálogo entre o colunista Diogo Mainardi e o "blogueiro de Veja on-line" Reinaldo Azevedo. E destaca uma passagem:
_ Eu vou me declarar golpista._ Eu acho que vai dar segundo turno. E se não der a gente vai pro tapetão.
Pela conversa, os dois concordam em quase tudo, mas o colunista diz ao blogueiro a certa altura, mais de uma vez, "pára de falar!".
Escrito por Nelson de Sá às 14h30

27 setembro, 2006

DEPOIS É O "POVÃO" QUE NÃO TEM MEMÓRIA...

Posso estar muito enganado, mas parece-me que as pessoas que dizem que apenas a massa de miseráveis apóia a candidatura Lula esquece-se de duas questões, ao menos:
1 – estarão acompanhando, pelas pesquisas, a segmentação por faixas sociais?
2 – será que sua memória alcança um período recente de nossa história eleitoral quando se afirmava que a chamada “classe dos miseráveis” é que apoiava PFL e assemelhados, por causa da desinformação e ignorância?
Enfim, onde é que está, mesmo, a desinformação?

26 setembro, 2006

AVE, PSDB! OS QUE CONTINUARÃO A SOFRER VOS SAÚDAM

... e a nossa grande imprensa, sempre apartidária e preocupada apenas com a verdade segue em frente: no seu comentário de hoje, pela manhã, Dona Lúcia Hipólito citou a instauração dos impérios de José Serra e Aécio Neves.
Eu cá, tendo nascido em Minas e morado por muitos anos em várias cidades de SP, me sinto feliz por não fazer parte do rol de seus servos.
Boa sorte pra vocês todos.

ACREDITE QUEM QUISER

Pessoal,
Aos que admiram, aos que não curtem e aos que ainda não sabem quem é o tal Diogo Mainardi, aqui vai uma chance de apreciar seu fantástico estilo de Notícias Populares pra eruditos e desavisados (ou iludidos, o que dá no mesmo).
Falo tranqüilo o que penso, por duas razões, entre outras tantas:
1 - toda e qualquer pessoa tem todo o direito de me falar o que quiser, assim como tenho o direito de reagir como melhor me aprouver;
2 - não sou empresário, empregado, aposentado, estudante, candidato e o que tenho é o que sou; portanto, tanto se me dá, individualmente, a quanto vai a inflação, a miséria, o desemprego, o preço do pedágio, a privatização do INSS ou do Banco do Brasil; como ser coletivo, desejo que todos tenham direito à felicidade, mas sei que a maneira como alcançá-la e senti-la varia de pessoa para pessoa; também sei que a ingenuidade e a boçalidade são opções válidas.
Enfim, segue um pedaço de um comentário do dito cujo e o link para a página onde se pode ler o comentário inteiro e o artigo que o “enfant terrible” liberal desovou na Veja. Os menos desatentos verão que a fonte do Diogo é um ilibado e desinteressado “integrante do PFL”.
Aos que acreditam que viver é algo além de transferir a comida do prato para o ralo, bom divertimento.
Bjs nas gurias e, machistamente, abraços apartados nos caras.


“Mainardi acusa IstoÉ de vender matéria de capa
Fonte:
A Notícia (SC) (http://www.an.com.br/ )

O colunista Diogo Mainardi, da revista Veja, denunciou em seu espaço desta semana a suposta compra da matéria de capa da IstoÉ de 20/09/06 pelo governo federal. Atribuindo como fonte um integrante do PFL, ele afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com Domingo Alzugaray, dono da Editora Três, que roda a IstoÉ, no final de agosto, quando teria acontecido a negociata.”
(...)
Matéria completa em:
http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&p2=idnot%3D31836%26Editoria%3D8%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D22037402500%26fnt%3Dfntnl

19 setembro, 2006

CURTAS

heteropatia

pra tpm grave
língua bem suave

Floripa, 19/08/06



não corra atrás das borboletas
plante flores
e elas virão até você


inclusive as chatas

Itacorubi, out/05



afinal
a pereca da prostituta
vem a ser um órgão público?


Biscoitos finos para a massa!
Antes, porém,
Oferecer-lhe a possibilidade de uma dentadura
adequada à mesma

Floripa, concerto da OSSCA - 22/04/03

17 setembro, 2006

contraponto

seo tiago,
ao caminho de compostela,
mui prefiro
o quentinho d’uma costela
dela.


lagoa, 16/09/06


Ps: pra Bonita

13 setembro, 2006

o olhar da flautista

paira
por sobre
entre
no
tom
atenta
aflita
suave
como a pausa
necessária ao som

o olhar da flautista
por onde flui
hein, Tom?

(drakkar, lagoa, 09/12/04)

11 setembro, 2006

TEATRO

qualquer ato
é um barato:
o ator olha
através
não para
o nexo por detrás da ação

o teatro cura-me
gargalho e
de pronto
calo-me
teso
anseio o golpe
mas não é ainda
relaxo-me

o tempo passeia
tenso

súbito
um punhal rasga o vil
agora
os ainda covardes punhais
vão surgindo do limbo da platéia
e avançam
freneticamente
por sobre toda a vilania deste mundo

enfim
o sangue por entre os dedos
reconfortante

esta noite
dormiremos tranqüilos



ps.: acabo de assistir um documentário dobre Antunes Filho, o mago do teatro: o cara não é fácil.

06 setembro, 2006

A PARTILHA

"quem parte e reparte,
fica com a maior parte
"
(da ignorância popular)

a propósito,
não seriam o seqüestro, o estupro, o roubo,
a corrupção, o tráfico (de droga
e/ou influência), o dízimo, a
esmola, a extorsão, a quermesse,
o golpe do baú, a prostituição e,
principalmente, aquele nosso jeitinho,
entre outras coisinhas mais,
meras alternativas de distribuição de renda
eclipsadas nas teses de Mister Adam Smith e
seus neo-comparsas?

05 setembro, 2006

ENQUANTO ISTO, NO PORÃO...

- Lavar o convés?
Hummm... Sim, Senhor...
Ah, sim... prá mim vai ser muito bom
aprender mais uma outra lição
de como viver neste maravilhoso barco.

“O cara de pau fala que nem pai:
‘- Você precisa aprender, meu filho.
Um dia você ainda vai me agradecer.

Ah, filho da puta!

Muito bom!
C’est très chic, M’sieur!
Morar no porão,
cuidar da boa aparência do convés,
e sair na porrada com ratos e baratas
pelas sobras do banquete.
Ai, a felicidade dos deveres!
Direitos?
Hummm! pois sim, os direitos...
Só um:
lamber botas dia e noite
e lamber de várias maneiras,
que todo Senhor é excêntrico: odeia rotina.
Ora, meu caríssimo amo,
como diz minha amiga Giselda,
vai-te à merda!
O quê? Estás espantado?
Vai à puta que te pariu!
Tu e tua democracia de merda.
De agora em diante, eu quero é a
pirataria e, prá arredondar,
a putaria:
que as donzelas da Corte sejam como
as pretas e as índias:
pau que dá em xica e ceci,
dá em lady di!
E quer saber d’uma coisa, ô...”

- AO CONVÉS! AO CONVÉS!!!
- S-sim, S-s-senhor...

“Ah, um dia ainda vôo nesta goela
e faço o Senhor engolir estes dentes.
Ah, se...”

- ÉS SURDO, Ô FILHO DA PUTA?!

- T-tô indo!

03 setembro, 2006

PALMAS, NÃO. PALMARES!

relhos
correntes
troncos
mares de sangue a escorrer pelas pedras
do pátio
no ar
os ódios e os gritos
a vida explodindo em vergões
(platéia apostas vivas sus!
doutores pedindo MAIS!
beatos pedindo MAIS!
ricos pobres
crianças velhos
madames prostitutas
todos pedindo MAAIIISSSS!!!)

frenesi
orgasmo na geral
a massa babando de prazer
um outro carnaval
e não eram três dias
mas trezentos e sessen...
(lá se vão os séculos
e corpos ainda se imolam
para o deleite das almas brancas
nos dias em que lhes é permitido
fugir das senzalas do morro)

hoje o brilho na avenida
amanhã o elevador de serviço
ou quem sabe
com um pouco de sorte
umas verdinhas no câmbio do mangue

02 setembro, 2006

PALPITANDO

Acabo de assistir CRASH (No Limite), dirigido por Paul Haggis.
É uma história de natal, com algumas situações tensas, muita gente diferente não se entendendo, uma tragédia e, como quase sempre acontece nos filmes norte-americanos, o final feliz para uns poucos. A quantidade de encontros conflitantes entre diferentes raças (ou etnias, como gostam os doutos acadêmicos) nos possibilita pensar nos tais “preconceitos”.
O termo está assim entre aspas devido à minha antiga descrença na existência de preconceitos. Claro que sei que estou duvidando de uma parte do conhecimento adquirido, ruminado e difundido por e entre os vários logos: antropólogos, sociólogos, psicólogos e etc.
Ora, tenho dificuldade em imaginar o recém-nascido, logo ao escapar do receptáculo materno, abrir os olhos e, ao ver que uma das enfermeiras é negra, abrir o berreiro com medo de ser assaltado. Também não consigo acreditar que o mesmo ou qualquer outro humano em construção olhe para um índio e já saiba que ele é indolente; para um alemão e já saiba que ele é frio; para um “turco” (como costumamos chamar todos os árabes e, nem sempre, os turcos) e já saiba que ele é unha-de-fome.
Os tais “preconceitos” são conceitos constantemente elaborados e difundidos no estilo de conviver deste predador dos predadores: o nada solidário homo sapiens. São armas distribuídas pelo grupo para serem utilizadas no enfrentamento com os diferentes. Assim como a tolerância e o respeito mútuo, sempre acompanhados de um sutil desde que... enquanto pais e mães continuam a ensinar aos meninos a agressividade e às meninas o choro como instrumentos de conquista por um lugar ao sol. Ou à lua; façam suas escolhas.
Calma! Sei que existem exceções. Conheço várias e sinto-me feliz por este privilégio.
Enfim, a meu ver, classificar esta maneira de tratar o próximo, e o distante, de “preconceituosa” é escamotear este detalhe da nossa permanente participação na construção da humanidade. Que tal seria ACREDITAR nas diferenças ao invés de respeitá-las através de camuflados filtros e senões?
De toda maneira, este papo todo é apenas uma maneira meio punk de convidá-los a assistir o filme e, principalmente, papear a respeito. O caso é que, como diz o Nelson Rodrigues, o Homem é o estilo. E eu, assim como todo mundo, tenho alguma resistência em transformar o meu.
Então...

01 setembro, 2006

tapete, um gato e eu
sentado aqui, olhando o teu retrato,
o coração, um emaranhado
feito os fios atrás da estante,
de onde vem neste instante
uma voz rouca, uma balada;
no teu cheiro na almofada
vejo a curva por onde
deixaste meu horizonte
nu


Ps.: sugestão, por motivos geográficos: trocar curva por ponte

...

o pensamento
parece uma coisa à toa
mas...
como é que gente voa?

aí...
começo a pensar

floripa, 27/07/05

31 agosto, 2006

SÔ VICENTE

o oleiro
na sua santa inocência
atolava sua imaculada mão na argila
a fazer os tijolos
que formariam o muro
barreira
entre o pomar do patrão
e a fome dos seus filhos

o bom deus
como de hábito
espalhava suas eternas bênçãos
sobre o homem de boa fé
seculus seculorum
amém...

AMÉM?

Caldas, início dos 80’s

YANKEE, GO HOME!

embotar de rubro o teu peito alvo
tornado alvo devido ao estofo
composto
de ódio cobiça
e leve queda
por oprimir reprimir consumir
toda e qualquer aldeia
cujos sonhos julgas não adequados
desde que nada se pode
senão o queres

empapar de rubro teu alvo peito
por mais que seja
nada será
além de mínima poça
bem mais rala
que os sete mares que tens turvado

Cassino, ?/?/95

29 agosto, 2006

PAPO DE ESFINGE

Bah!
Decifra-te.
Eu cá,
devoro-me.

NÃO CARA-PÁLIDA!

sei que só
não salvarei a tribo
mas não serei o batedor
que dirá à cavalaria
qual é a melhor hora para o ataque

não me cativam
teus espelhos e contas de vidro

antixenofobia

como todo brasileiro
um pé na cozinha

na cozinha
do mundo inteiro

lagoa, 13/05/06

esperar de deus...

mano
quem tá no salão de festas
não se preocupa com quem ainda não entrou

aproveite o banco da praça
mano
se encontrar algum vazio
boa sorte pra ti...

floripa, 26/08/05

25 agosto, 2006

Curitiba, 29/08/03

quero brincar com o menino e seu sorriso diferente, partido
que me olha, em meio a cenhos franzidos e apartantes
dos adultos desconfiados

ganho o sorriso
quero mais
quero o brincar, o fabricar sorrisos

a conquista do brincar é uma luta contra a paranóia de hoje
que vem lá do ontem
crescendo feito massa overdosada de fermento

a noite curitibana, gelada
lembra-me que já dormi um bocado de vezes nestas cadeiras,
e que amo, se é que amo alguma coisa, a boa luta

volto à biografia de g. stein e me pergunto:
- qual outro babaca lê a biografia de g.s.
a esta hora
nesta gelada rodô de Curita
?
ou em qualquer outra rodoviária
?

e minha cabeça, vagabundante como sempre, vai a 77:
descolando a grana pra chegar em casa, após
3 dias em dormir
3 dias dormindo em Floripa (que desperdício, ô mané! )
3 dias a banana e cachaça em Balneário Camboriú...
E Cosmó e o feijão de minha mãe, lá longe

continuo a luta por me deixarem brincar com o menino
e venço
porque a alegria sempre há de vencer
e nela, entendo-me com ele

levantam-se
dou-lhe um chaverinho qualquer
(eu, sempre, querendo ir junto)

a mãe rende-se, enfim:
- não vai se despedir do seu amigo?
até insiste, agora:
- diga obrigado!

por dentro, respondo
- carece, não
a vida já me disse, há muito tempo

Curitiba, 29/08/03 – Lagoa, 03/11/03

22 agosto, 2006

NAVALHA NO CERNE

“...mas minha nega
é exatamente porque sei
das tuas dificuldades
dos riscos que corres
(e tanto por tão pouco)
em tuas rondas noturnas
oferecendo pelas esquinas
este corpinho que deus fez
e muitas vezes
em troca
recebendo apenas porradas

neguinha
é por isto que tou aqui
pra te proteger desses jacks
que te seguem pelas madrugadas
te espreitam nos becos das viaturas

eu
que sei dos teus mais íntimos sonhos
mesmo quando te calas
pô neguinha...
sem sacanagem...”


amantes...
palavras cada vez mais sussurros
o vício e o sofrer...

amantes?!

olhares
silêncio
pensamentos
a brisa garoenta agita a cortina
momentaneamente
o neon do hotelzinho de família
invade a penumbra

algo mais brilha na alcova

ZZZAPT!

enfim
os dentes do cordeiro
alcançaram a garganta do pastor/lobo

antes do rubro sorriso tingir o chão
resoluta
posta-se Margot atrás da porta
bem sabe que ainda não é tempo
de limpar a lâmina


Ps: Bonita, onde tem algo do teu Malraux, neste?

20 agosto, 2006

Pra viajar eu pego um trem

quando vejo um bife
como o bife
não fico a imaginar
a cor da vaca
enquanto o bife esfria

Floripa, 17/03/06
e então?!
inquire-me incisivamente
o auto van gogh no retrato

vêm-me os olhares
no plural mesmo
das mulheres de quem gosto, gostei e gostarei
“- eita! o cabra num é fraco!", diria a massa
a maioria
tristes porque desejosas
vivazes? poucas
poucos olhares são vivas asas (snif!)

um vampiro alimenta a si de vida
e vida não importa qual
olhares: gasolinas de minha vida cometa

a queda pelos olhares
de quem acompanhada mal está
parei
hoje sigo
gato escaldado com medo de corrimão
e sem-vergonha de ser sem

então...
então sou só mais uma vela que passa
não velo por ninguém

como tu
van nunca em vão
meu mais um irmão holandês

Floripa, 19/03/04

19 agosto, 2006

radicalizando:

“Sabe quantos caras morreram em Bogotá para que você possa cheirar, Kyle?”

O próprio Kyle pergunta-se numa cena do filme LES FLEURS D’HARRISON (O Resgate de Harrison), suabilíssimo filme de Elie Chouraqui.
A quem será que interessa a resposta?

YANKEE, GO HOME!

embotar de rubro o teu peito alvo
tornado alvo
devido ao estofo
composto de ódio cobiça e leve queda
por oprimir reprimir consumir
toda e qualquer aldeia
cujos sonhos julgas não adequados
desde que nada se pode
senão o queres

empapar de rubro teu alvo peito
por mais que seja
nada será
além de mínima poça
bem mais rala
que os sete mares que tens turvado

ARITMÉTICA

no princípio
deus subtraiu da lama
criou adão
subtraiu de adão
criou eva

a serpente
esta pervertedora da ordem
a adão somou eva

na sua divinal indignação
deus nos subtraiu o paraíso

daí
caim subtraiu abel
noé subtraiu a vizinhança
jesus subtraiu judas
...
ad infinitum
enquanto dure
- como será isto em latim? {8¬(

18 agosto, 2006

minerim

... e tudo vou rompendo com meu sorriso
mineiro jeitim de mexer nas montanhas
sabedor que elas contêm
mas não são
de ferro

Floripa, +/- 2004

17 agosto, 2006

Mareca faz oitenta

mãe de todos
nós
e agregados outros

bisa

ó
coração do mundo
fecundo ventre
de onde vens
tudo vem

a tudo
atenta
Mareca faz oitenta

lagoa, 05/09/05

Clarissa à espera

o esperar prescinde
do desespero
da pressa
da angústia da ausência
posto que não existe esta

o suposto ausente
habita-te saliências e reentrâncias
sabes-lhe cheiro, cor e sabor

rumo ao encontro
já o levas pela mão

distância
tempo:
tudo mera ilusão

Lagoa, 14/07/06, 02:10 h

16 agosto, 2006

All Along the Watchtower

(... mas, assim mesmo, eu vou correndo
só pra ver...)

... e lá vem o costume cristão de reclamar do viver:
“- que merda de chuva!”
(quando o sol aparece, apenas trocam chuva por sol
quando venta...)
“- que dia deprimente!”
(onde é que está, mesmo, a depressão?)

À minha janela,
nada vejo do eterno verde.
Porém, sei-o.
O nada está no alcançar de minhas retinas.
Sinto-o em meu concreto espírito,
parte que estou da extensão de tudo
(no palco à minha volta,
o balé da ramagem feliz
e seu saltitantes cantores
nos oferendam esta certeza vital).

Pra chorar num dia assim,
é preciso ter lágrima já pronta.

Sambaqui, 31/10/02

cartão de visita

dentro de mim vos garanto
há um jekyll e um hyde
não sei qual vos apresento
qual de maior intensidade