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19 setembro, 2020

CAVALO OU ZEBRA?!

 

“As tardes escorriam. A surdez era uma barreira entre seu ouvido e o mundo. Como o portão entre o mundo e nós: cadeiras presas na varanda. Às vezes, passava alguém. Apertava os olhos:

- E essa gente de pano na boca?

Eu ria. Como explicar às suas 94 primaveras?

Sintonizava o rádio pelo celular e colava ao seu ouvido à espera da estrela Dalva cantarolada, ansiando o movimento dos lábios que me têm colorido a vida.

- Canta, Mãe. A Senhora sabe a letra: no céu desponta...

- Não escuto nada.

Grudado nela, como aguardei o domingo de carnaval e lua cheia em que me ofereceu à luz, resisti àqueles dias.

Cadeiras de volta à calçada ...”

A grade ainda confunde as retinas.

- Que vem lá? Cavalo ou zebra?

Sigo seu indicador rumo ao ouvido.

- Não escuto nada.

Que alívio!


Ps.: É nóix, Mãinha e suas (nossas) 95 primaveras!

15 março, 2013

UM CONTO MANEZIM




PRESENTE SEM FUTURO?

Acontecimento raro, como sabidamente rara é a beleza.
Família é presenteada pela vida com uma criança linda. Enquanto Flor cresce, parentes, como de praxe, planejam seu futuro. Instalam prancheta no quartinho dos fundos. A cada momento, algum dos responsáveis por sua existência propõe linhas que nem sempre – ou nunca – combinam umas com outras, embora ninguém se aperceba:
- Podemos vendê-la para um casal estrangeiro. Ela terá mais segurança no futuro; nós, mais conforto no presente. O fim de ano se aproxima e precisamos trocar de carro.
- Podemos deixar seu cabelo crescer e vender os cachinhos. Conheço quem compra e paga bem.
- Também pode fazer propaganda de sabonete ou sabão.
Uma voz destoante:
- Precisa tomar vacina...
Muitas, em uníssono, interrompem:
- Não podemos perder tempo!
Parentesiseando: não se trata de família depauperada, dessas que vendem almoço para comprar janta: tem carro na garagem, cerca elétrica, televisor dos fininhos com n polegadas, closet climatizado e muitos livros de autoajuda na estante da sala. Assina semanários e tem presença assegurada em palanques. Família de bem, pois sim.
O tempo atropela: Flor adolesce. A parentada continua debruçada na prancheta:
- Está uma mocinha, né? Precisamos lhe arranjar um bom casamento.
- Vamos mandar fotos dela pro BeBeBo e pra Arrazenda.
- Vamos inscrevê-la no concurso da televisão.
Outra destoante:
- Flor precisa de água limpa...
Coro, nervoso:
- O tempo ruge!
Inexoráveis, circunstâncias continuam a exercer seu ofício sobre a menina que, ainda bela, subsiste. Já apresenta falhas no sorriso, cachos convertidos em emaranhados, eczemas avançando pela antes tão macia e perfumada pele. Porém, ainda tem olhos de mar. Belezas ainda recônditas conferem, a Flor, ímpar magia. Suplicante magia.
A parte bem intencionada da parentada implica com as parcas vozes destoantes. Acusa-as de serem contra a felicidade de Flor e padecerem de ranço eco isto & aquilo. De rejeitarem o progresso da filha. De quererem o retorno aos casebres iluminados por pombocas enquanto filhas nem tão bonitas usufruem de oníricos cubos de metal e vidro.
Poucos percebem o estado crítico de Flor e a novela trágica em que vai se transformando seu viver. Alheia às súplicas, a maior parte dos membros da família permanece, como sempre, atenta ao seu umbigo. Não fazem conta de rancho de amor algum. Flor, impaciente com o Futuro, anseia melhor Presente. Turvam-se-lhe os olhos de mar.
Talvez só as bruxas de Cascaes possam lhe salvar das bem intencionadas almas que, como se sabe, forram certa seção do Além.

Ps.1 - No clip, LUIZ HENRIQUE ROSA canta RANCHO DE AMOR À ILHA, hino de Florianópolis, composta por ZININHO.
Ps.2 - Saiba muito mais sobre Floripa clicando nos HYPERLINKS (palavras realçadas).

23 julho, 2011

QUEM ESPERA...

QUEM ESPERA...

Chove. Ponto de ônibus. Poucos veículos passam, pois é sábado – pior só aos domingos.
Faz uma panorâmica do entorno: à esquerda, pessoas pintam o que veriam no canal onde escorre água morta; à frente, árvores e pássaros comemoram a chuva sem notar que também está frio; à direita, a placa confirma-lhe que se trata de uma parada de ônibus; às costas, a biblioteca desanimada como um bar na segunda-feira.
Confere o horário. Uma ave experimenta um vôo tranqüilo e, num rasante, cruza a rua vã. Lembra-se de catracas e filas.
Duas garotas travestidas de caipiras de festa esforçam-se em se mostrar alegres, uma à outra.
Olha para o início da rua: solta mais um muxoxo ao não ver o ônibus. Olha para o céu numa tentativa de súplica: aves soltas no espaço parecem não notar a pseudo-presença de ... que suspira:
- Na outra encarnação espero nascer estilingue...

Pano lento.


UFSC, 02/07/2011