03 dezembro, 2014

CINE PARADISO APRESENTA: NADIR


Decididamente, não tenho porque reclamar das situações em que a vida me colocou. Nem mesmo daquelas em que, momentaneamente, “a boca da égua tenha azedado”. Creio que não precisa explicitar aqui o quanto gosto de cinema. Quando resolvi, pela primeira vez morar sozinho, aluguei um casarão antigo numa das melhores vizinhanças que tive o prazer de desfrutar, em COSMÓPOLIS. Então, no início dos anos 90, fui ser vizinho, dentre outras não menos bacanas pessoas, do projetista do Cine Avenida: meu amigo Nadir. Por mais um feliz acaso, o cinema ficava bem na esquina, a poucos metros de minha casa.
Lembro-me sempre de uma noite em que, passando pela frente do cinema, encontrei o Nadir, pois a sessão ainda não havia começado, e parei pra prosear. Papo vai, papo vem e nós conversando sobre a queda no número de espectadores e quais as razões disso estar acontecendo. Ele me conta que muitas pessoas, principalmente estudantes, chegavam à bilheteria e perguntavam:
- “O filme é de ler?”
Segundo Nadir, se fosse, a pessoa não entrava. “Filme de ler” significava “filme legendado”. Havia tristeza no que ele me dizia e não pude senão concordar com ele em relação à preguiça mental que, sem que o soubéssemos, já estava virando moda. Hoje em dia, quando vejo que, nos cinemas de shoppings, as sessões dubladas são as mais frequentadas, fico com a impressão de que a moda pegou.
O Cine Avenida, assim como quase todos os cinemas de cidades pequenas ou não, foi fechado. Nadir perguntou-me se havia, em minha casa, lugar onde pudesse guardar algumas coisas que precisaria retirar do prédio. Ofereci-lhe um dos quartos que eu não utilizava. Ele trouxe um bocado de coisas: latas de filme, cartazes, duas cadeiras de estofado vermelho e sei-lá-mais-o-quê. O material ficou lá até o dia em que me mudei e precisei entregar a casa. Várias noites, eu abria a porta do quarto e ficava olhando aquelas relíquias, viajando a bem mais que 24 quadros por segundo.
Na noite passada, fiquei sabendo que Nadir foi viajar. Penso que foi recepcionado em belo salão repleto de espectadores e com uma comissão organizada por Seo Hardy e composta de cineastas e atores a quem ele sempre tratou muito bem.
Boa viagem, Nadir.

3 comentários:

Ana Clara Marcomini disse...

Tio meu tio querido !
Me lembro exatamente de suas anotações sobre todos os filmes que ele assistia e colecionava e encantada ficava! Tanto carinho e detalhes !
Sempre falei dele com orgulho e sempre vou falar ! Pra sempre em minhas lembranças!

Alê. disse...

Um privilégio ter na infância um tio que morava dentro de um cinema ali passavamos as férias e feriados brincando entre os rolos, cartazes e cadeiras velhas atras da tela ficava admirando o carinho com que ele lidava com tudo isso as vezes ele deixava ficar junto na cabine na hora da exibição o causava muita alegria ele me ensinou a amar o cinema

Josy Simoes disse...

Oi e Shasça Milk só você para relembrar fatos e fazer una homenagem tão linda, são por esta é por tantas outras palavras, e pessoas que lembram do querido seu Nadir meu sogro, amado, o qual a dor e tamanha , que eu sei que já valeu a pena, uma pessoa de tanto valor e valores numa simplicidade que era só dele, nos foram oassadas, amei do fundo do meu coração Obrigada Beijo enorme🌷🌷🌷🌷🌷🌷💗