14 maio, 2011

14 DE MAIO DE 1888

Entre as poucas coisas que me intrigam está o dia seguinte. Excluindo-se o carnaval, não me lembro de comentários sobre os dias subseqüentes às várias efemérides que avermelham nosso calendário. Tomando a exceção por exemplo, nos cultos religiosos, telejornais e, obviamente, nos poucos botecos abertos, as pessoas reclamam/comemoram/recriminam a inevitável ressaca da quarta-feira. Mesmo quem não bebe água que passarinho enjeita acaba tendo sua ressacazinha; moral que o seja.

Pois bem, como terá amanhecido o 14 de maio de 1888? Como terá sido a ressaca social depois de Isabel ter assinado a LEI ÁUREA? Aliás, não fosse ela tão humilde e cônscia do papel que a História do Brasil lhe reservava, penso que o nome seria Lei Isabel. Porém, como é de conhecimento e crença dos servos, os nobres só são orgulhosos quando obrigados a sê-lo pela liturgia do cargo. Quando livres da pompa e circunstância chegam a descer dos tronos rumo a alcovas secretas ou, em tempos menos distantes, quartinhos de fundo. Afinal, mesmo os de sangue azul têm seus momentos de humanos e quebram o decoro.

Voltemos ao 14. Como a maioria das pessoas que trabalhavam eram escravas, quem terá alisado os cachos da sinhazinha? quem terá dispensado o conteúdo dos penicos? quem terá remexido o tacho quente de melado? quem terá soltado os ocupantes dos pelourinhos que, como acontece a muitos dos cativos atuais, porventura tenham sido esquecidos a cumprir penas já extintas pela principal caneta de ouro cravejada de brilhantes e rubis?

Fico a imaginar que a Lei Áurea (belo nome, hein?) foi o primeiro choque de gestão tupiniquim: cada um foi cuidar da sua vida e resolver suas necessidades.

Nas cidades, donas-de-casa que não providenciaram, previamente, assessoras remuneradas do lar, chegaram a queimar os dedos tentando coar o cafezim ou deixaram o angu encaroçar – é, as madamas comiam angu, sim. Empresários foram para suas fábricas resolver questões de produtividade e ajustes salariais com seus colaboradores.

Na roça, fazendeiros acordaram mais cedo para conferir se os feitores estavam conferindo a entrada em serviço dos seus agora contratados. Por incoerente que pareça, mesmo depois de abolida a escravidão, os feitores não foram desativados. Também era preciso anotar a retirada das ferramentas e da ração alimentar já que, no novo ordenamento trabalhista, estes bens não haviam perdido o seu valor, ao contrário do escravo. O ex-escravo, com a liberdade concedida no dia anterior, deixou de ser considerado um BEM ECONÔMICO e passou a ser classificado como MATERIAL DE CONSUMO. Perdera o status de MERCADORIA. Agora, o que valia era sua FORÇA DE TRABALHO, mercadoria facilmente encontrada no MERCADO.

O valor das ferramentas necessárias ao trabalho e o dos mantimentos imprescindíveis à subsistência do trabalhador e a de seus filhos – peças de reposição - era anotado e, ao final do mês, descontado do pagamento. Às vezes, calhava de o neo-empregado quebrar alguma ferramenta ou trabalhar menos que comia. Então, por causa desta mania que o pobre tem de não controlar seus gastos pessoais, ele ficava devendo alguns trocados além do salário a receber. Coisa corriqueira e de fácil solução: o salário ficava com o patrão e o restante da dívida era lançado nas despesas do mês seguinte. Qualquer semelhança com o que acontece em algumas fazendas brasileiros ou em casarões do centro de São Paulo é mera e proposital semelhança.

Citei os feitores, né? Pois, paranóico que sou, sempre que vejo NEGROS DISCURSANDO CONTRA O SISTEMA DE COTAS, vem-me esta gravura de DEBRET, na qual negros fortes e bem alimentados chicoteiam negros fracos e desnutridos. Por que será?

E tu? Como imaginas que foi o 14 de maio de 1888?
Com a palavra...


Ps.: tem muito mais informações nos HYPERLINKS (palavras realçadas).

12 comentários:

Cristina disse...

Acredito que para os escravos, o êxtase deu lugar a insegurança. Tal como acordar de um sonho... E quem não estaria inseguro diante de tal realidade? A liberdade foi simbólica. Hoje não é diferente. Livres, mas presos ao consumo, as boas maneiras, aos sorrisos, as convenções... Quanto aos não escravos, não ouso opinar, pois, estou certa de que eu estaria com um sorriso no rosto e o coração cheio.

PortalMatrix disse...

O que significa o dia 14 de maio de 1888?
O 14 de maio de 1888 é seguramente um momento muito mais importante do que a própria abolição. Após a assinatura da lei áurea milhares de negros por todo o Brasil comemoram a tão sonhada liberdade. Conquistada não por bondade do homem branco, mais por uma série de fatores de interesses econômicos de uma nova sociedade que nascia, a qual precisava de um mercado consumidor. Além disso, os negros não ficaram submissos àquela realidade, houve processos de manifestações, revoltas, ataques e criação de quilombos. Esses a maior prova da resistência negra.

Com as fazendas ao fundo, o negro olhava para o seu destino logo à frente, foi provavelmente um misto de alegria e pavor. A dúvida do que a sociedade brasileira teria a oferecer àquele contingente de negros sem direitos estabelecidos, sem destino, sem terra era ainda um mistério. A ação política daquele momento em 14 de maio de 1988 gerou uma herança que persiste nos dias atuais. O governo brasileiro não assegurou nenhum tipo de política pública que por menor que fosse resguardando um mínimo de possibilidade do negro se afirmar como cidadão no fim do século XIX e no início do século XX. E para tornar sua situação ainda mais complexa, foi criado incentivo para a imigração de europeus para trabalhar na agricultura e pecuária no país. Milhares de imigrantes vieram para o Brasil sedentos por oportunidades e terras. E desta forma, o negro viu as possibilidades de mercado de trabalho desaparecer.

As terras que não foram para eles destinadas deixaram como opção a busca de espaços urbanos de situações precárias que constituíram as favelas. Esse foi o ressarcimento dado a população negra em pagamento aos séculos que seus pais, avós e demais ancestrais dedicaram ao grande país, Brasil.

Nós, população brasileira, descendentes diretos dos imigrantes que a pouco tempo chegaram aqui, negamos até mesmo a mistura em nossa sangue da descendência do povo negro. Somos negros, todos somos negros, porque somos brasileiros. Mas, negamos isso, negamos, porque achamos e falamos isso em alto e bom som, que os negros têm as mesmas condições que todos. Que cotas, ações afirmativas isso tudo é bobagem que devemos é melhorar o ensino básico. Lá nas criancinhas e dar a elas a oportunidade de mudar essa história. Não estamos errados, é preciso sim mudar o ensino básico inicial, dar total condição para que nossas crianças negras tenham possibilidade de competir de igual para igual em tudo com os demais, que não são mais do iguais a eles. Porém, não percebemos que há uma situação a ser mudada. Existe racismo. Existe preconceito.

Este negro filho do dia 14 de maio de 1888 passa por situações que muitas vezes nós não tomamos conhecimento. São situações de discriminação no serviço público. Há relatos de mau atendimento e até de negativa de atendimento por ser negro. Parece mentira. Mas, não é mentira situações em que o negro tenta manifestar sua religiosidade de matriz africana, o candomblé, a umbanda. Não, não é uma seita, um culto é uma religião. A mesma que a nossa de homem branco. A mesma que leva a Deus e que exige respeito para com o seu irmão de sangue, de amor.

avellar disse...

O day after deve ter sido de arrasar. pagode, cachaça,mulher e muitas brahmas. Com naquela época não tinha pedra, a moçada fez fumaça de montão. Até a Glória Maria estava lá cobrindo tudo, com narração do Cid Moreira. Muita gente com camisate do mengão. Pelé foi aclamado Rei! EM SP os manos estavam com hiphop tocando alto, carros rebaixados, adesivo do Curintia. É deve ter sido um festão mesmo.

avellar disse...

Voltei para falar sério, porque 13 de maio foi mais que um marco no Brasil, mas uma atitude revolucionária numa época em que a humanidade não tinha discernimento para avaliar o tamanho da barbárie, grassando povos, dizimando nações seculares no berço africano.
"O horror! O horror!" Estas palavras, foram as últimas do personagem Kurtz, em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, escrito em 1902. Naquela época os europeus ainda não tinham assimilado o exemplo da Princesa Isabel.
Devemos nunca esquecer que a opressão de um povo é a degradação do opressor.
Gostei do seu texto, amigo, abs

Gy Camargo disse...

Oi Shassa. Demorei, mas cheguei.
Serei breve.
O 14 de maio, para nós negros, se estende até hoje.
Temos que estudar mais, nos esforçar mais, ganhar menos. Ter nossa inteligência e atributos físicos subestimados, e, ainda por cima lidar com sentimentos de inveja porque "ralamos" por um lugar ao sol.Enfim, mudou pouca coisa, viu?
Adorei o post.
Abraço.

Adriano C. Tardoque disse...

Os historiadores passaram décadas acusando a princesa Isabel de "inanição de direitos" ao assinar a lei áurea. Agora, uma nova safra começa "rever" seu papel com "participação decisiva" e bem no fundo, com um fundamentalismo feminista. Algumas vezes me sinto no livro 1984, de Orwell.

Cristina Machado disse...

Bela reflexão!! ... Sinceramente nunca me ocorreu pensar em como teria sido/foi essa reorganização social com tantas amarras por soltar e "reatar" ...

Sem dúvida um processo longo e sofrido ... E por que não dizer, social e culturalmente inconcluído.

Fernando Pires disse...

O dia 14 , certamemte foi legal para a grande maioria que vivia escravizada.Tem gente confundindo escravidão com racismo.O racismo ainda existe, mas a escravidão acabou, pelo menos aqui no Brasil.
O salário minimo aqui é de 300 dólares, e na China não chega a 100
Tem gente que fala demais e não faz nada...
Aqui em casa tenho uma empregada doméstica com a cor da sua pele; branca como a neve.Tenho também aqui em casa uma filha negra que adotei com 08 dias de vida , porque sua Mãe prostituta das ruas do Recife não queria ficar com ela.
E aí turma, vamos continuar recalamando, ou vamos ter a coragem de fazer algo mais concreto em uma area social tão CRÍTICA?

Luis Celso Lula dos Santos disse...

Companheiros, essa história do 13 de Maio realmente precisa ser recontada e, principalmente, sobre a ótica de um escravo. Sou tataraneto de escravos. Histórias perdem-se ou perderam-se com o tempo. Tenho a mesma visão do branco proprietário porque fui beneficiado. Sou descendente do Eugênio Breves, Barão do Café, dono de Mangaratiba, São João Marcos, etc. Notícias dos filhos com as Negras registrados. Fotos inclusives. E os outros filhos da Vovó Geralda com o Negro que lhe foi doado junto com um pedaço de terra ? Da família Breves e da Breves Pereira temos registros e memória. Inclusive meus parentes receberam indenizações da Light em relação ao Ribeirão das Lajes. E os demais negros "libertos" como ficaram ?? Os demais filhos da Vovó Geralda, Negros puros, sobreviveram ?
Respondam-me por favor !!!!

Deivid disse...

Como disse o poeta: “A favela é a nova senzala”. Grande abraço, amigo Shasça, parabéns pelo título do Santos! Muita paz, saúde e paciência à Maria Cândida, ela vai precisar! rssss

Shasça disse...

Putz!
Realmente os comentários são as cerejas do bolo-post! Ou será cake-post?
Por incoerente que pareça, o carnaval citado por Avellar deve ter acontecido para boa parte dos negros que estavam na cidade do Rio de Janeiro. A ressaca, com certeza, aconteceu para quase todos, o que fica claro nos comentários e, ainda por cima, testemunha Luiz Celso.
É um privilégio merecer a participação de vocês, cumadis e cumpadis.
Compareçam sempre que a luta é contínua!
Brigadim!
{8¬)

Anônimo disse...

A Criação gera matéria-prima por conta própria; nós geramos a partir daí, devolvemos o que recebemos da natureza modificado.
Por vezes, sentimos o temor de que a Criação nos absorva em vida, usamos definições pra nos defender porquê essa é a nossa razão recebida.
Pois o deslumbrante contato com Ela é antes um impacto tão grande capaz de nos anular numa fração de segundos; e no fundo Ela não quer olhemos para sua Cara, porquê diante disso perderíamos a identidade.
Por isso nosso impulso diante dEla é nos virar para dentro e tentar entender o “Basta a ti mesmo”.
Nosso silêncio guarda tudo, da plenitude a sílabas cruéis. Faz sentido a interação, depois do silêncio. Não há conforto na ação pelo barulho em si.
Um destino, um mundo virtual, possibilidades, fazeres, apagares, tomar conta, deixar-se, crescer. Que Era estamos vivendo...